A disputa entre dois “Eus”: o verdadeiro e o impostor

Comecem lendo este texto de Brennan Manning, um dos autores que reflete sobre o verdadeiro sentido de se pertencer ao Cristianismo: “O conceito de pecado de Thomas Merton não se centra em atos pecaminosos isolados, mas, fundamentalmente, no ato de optarmos por uma vida de fingimento.” A vida em torno do “falso eu” gera o desejo compulsivo de apresentar ao público uma imagem perfeita, de modo que todos nos admirem e ninguém nos conheça. “Só pode haver dois amores fundamentais”, escreveu Agostinho: “o amor a Deus, numa negligência a meu eu, e o amor ao eu, numa negligência a Deus.” Merton disse que a vida dedicada à sombra é uma vida de pecado. Pequei em minha recusa covarde — por temer ser rejeitado — de pensar, de sentir, de agir, de responder e de viver a partir do meu eu autêntico. Recusamos ser nosso “verdadeiro eu” até mesmo com Deus — e depois nos perguntamos por que nos falta intimidade com Ele. O ódio pelo impostor é, na verdade, o ódio de si mesmo. O impostor e o “eu” constitui uma só pessoa. O desprezo pelo “falso eu” dá vazão à hostilidade, que se manifesta como irritabilidade geral: irritação pelas faltas dos outros, que são as mesmas que odiamos em nós. “O ódio próprio sempre redunda em alguma forma de comportamento autodestrutivo”.

Este texto nos leva a meditar sobre uma das bases do Cristianismo, que é a pecabilidade. Qual é o verdadeiro pecado? Existem pecadinhos? Pecadões? É a paranoia do pecado que gera cristãos deformados a perderem o verdadeiro sentido de relacionamento com Deus. Batemos na tecla errada ao propagar um Deus falso para uma humanidade perdida no pecado: passamos para a humanidade uma culpa, mas não mostramos onde verdadeiramente ela está. Viver a falsidade pecaminosa do “eu falso” é a origem dos pecadinhos nominais de que falamos todos os dias. Em todo o tempo, pessoas são julgadas pelos seus atos de pecado, mas não se mostra a elas, a origem de seus pecados, a fonte de onde esta água nasce. Como Brennan Manning afirma, ao citar Thomas Merton, o macro pecado habita no “falso eu”, no impostor. O que é o impostor senão você mesmo vivendo uma mentira sobre si mesmo.

Você se engana em todo o tempo, tentando mascarar sua dor por dentro da distância da luz. Em IJoão 2.10a está escrito: “Aquele que ama a seu irmão está na luz” Quem ama está encontrando o seu verdadeiro EU. Aquele que vem para a Luz do Espírito Santo busca o autêntico Eu, que é verdadeiro, sem hipocrisia. Quem não mergulha dentro de si para se conhecer e conhecer suas verdades, vive uma história de conto de fadas pessoal, vive com “duendes” em suas florestas emocionais. Este é o sentido do texto de Manning, que afirma que o verdadeiro pecado está na vivência da falsidade de si mesmo, da tentativa de se passar por alguém que você não é. Quando estou envolto nesta ação de esconder quem eu sou, me entrego aos pecadinhos nominais, que minha carne me leva. Não me refiro à fonte jorradora, da essência do distanciamento de Deus, que é o Pecado (veja que o coloquei em maiúsculo e no singular).

Watchman Nee (pensador cristão perseguido e preso pela revolução popular da China, nos anos 1960) distingue bem pecados de Pecado. Pecado (no singular) é o pecado original, que deve ser tratado em nós. É ele que dá origem aos pecados (no plural). Viver fora, no “Eu” impostor, é viver de mãos dadas com os pecados, mesmo que você não peque “cabeludamente”, se assim podemos dizer, o simples fato de você estar fora de si mesmo, já o leva ao Pecado original, isto é, à independência de Deus, ao orgulho. Condenamos quem adultera, mas não condenamos que se orgulha! Por quê? Porque quem adultera está visível, está infringindo a sociedade, a ordem social. Quem se orgulha passa despercebido ou até mesmo é elogiado pelos falsos “Eus”, colegas de ação e também impostores (atire a primeira pedra…).

É impressionante como Jesus usa sua divina inteligência no trato com as pessoas pelo evangelho. Veja o próprio Mateus, antes de ser apóstolo do Senhor, era a pior escória da sociedade depois dos fariseus. Ele era coletor de impostos para os Romanos, que escravizavam seus irmãos. Quando você estuda o sermão da montanha, em Mateus 5 a 7, fica como que de boca aberta ao ler a narração da “outra face”, dos “lírios dos campos e dos pássaros que não guardavam em celeiros”. Mateus teve um encontro consigo, ele mergulhou mais fundo, onde somente o Espírito Santo pode nos levar e foi transformado de um impostor covarde, a um apóstolo amado de Cristo.

Pecado no singular é raiz que deve ser tratada, pois é ela que dá origem aos pecados nominais. Quando volto meus olhos ao Cristo verdadeiro, me vejo por dentro, preocupo-me com minha origem, com meus temores, com minhas essências; porém, quando olho para o Cristo e vejo no lugar d’Ele a Lei, tiro os olhos da Graça e passo a viver na falsidade do meu desempenho, no meu cristianismo nominal e fútil, no meu “Eu” impostor.

Andar com Deus Pai é uma caminhada para dentro das jornadas de mim mesmo, até encontrar com o Meu Cristo, esperando para que eu descanse em Sua Graça.

Pr. Silvério Peres
Fonte: getsemani.com

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