Que noite!

Talvez tenha sido na primeira quinta-feira de abril do ano 33 da era cristã, dia 2, se a cronologia de Harold Hoehner estiver correta. Não foi uma noite maldormida. Foi uma noite não dormida. A noite inteira, das 6 da tarde às 6 da manhã. Paulo tornou-a muito conhecida ao se referir a ela como “a noite em que Jesus foi traído” (1Co 11.23). Os dois primeiros evangelistas dizem que Jesus se reuniu com os doze apóstolos em um amplo e mobiliado cenáculo em Jerusalém “ao anoitecer” (Mc 14.17, NVI). Afirmam também que “de manhã bem cedo”, o conselho dos principais líderes religiosos do povo judeu o condenou à morte (Mc 15.1). Entre o anoitecer e o clarear do dia seguinte, o que aconteceu com Jesus?

Essa noite, o Senhor caminha do cenáculo ao Monte das Oliveiras, do Monte das Oliveiras à casa de Anás e da casa de Anás à casa de Caifás. Ele está na companhia dos doze apóstolos, na companhia do anjo do céu que o conforta, na companhia de uma grande multidão armada de espadas e varas e na companhia dos chefes dos sacerdotes e anciãos do povo. O Senhor está sob a laje de uma casa emprestada, ao ar livre no Jardim do Getsêmani e sob o teto do palácio de Caifás. A reunião dirigida por Jesus no cenáculo só não é maior que a reunião dirigida por Paulo em Trôade (At 20.7-11).
Começa com a refeição da Páscoa e com a instituição da Santa Ceia. Para ilustrar a prática da humildade mútua, Jesus levanta-se de repente da mesa, tira a capa de cima, coloca uma toalha em volta da cintura, derrama água numa bacia, lava os pés de seus discípulos e enxuga-os com a toalha. Em seguida, faz a revelação do traidor secreto, oferecendo-lhe, como sinal, um pedaço de pão molhado na tigela que contém caldo de carne. É obrigado a ouvir a cínica pergunta de Judas: “Acaso sou eu, Mestre?” (Mt 26.25).
Na mesma ocasião, Ele prediz a tríplice negação e a restauração de Pedro. Assume também o compromisso de enviar-lhes outro consolador, o Espírito Santo, que os lembrará de tudo o que Ele lhes tem dito. Apresenta-se como o caminho, a verdade e a vida, e como a videira verdadeira. Encoraja a oração, a permanência nele, o amor mútuo e a produção de frutos. Transmite a seus discípulos amor, paz, segurança, consolo e alegria. Promete voltar algum dia mais na frente. E, para completar, Jesus levanta os olhos ao céu e ora a Deus por si mesmo, por seus discí- pulos e por todos aqueles que crerão nele por meio da mensagem por eles pregada. A longa e tranquila reunião termina com um hino, sem dúvida, um dos Salmos.
Então Jesus e os onze apóstolos seguem para o Jardim do Getsêmani, no Monte das Oliveiras. Já é bem tarde da noite. O quadro muda bruscamente no Jardim do Getsêmani. Jesus é tomado de uma tristeza atroz. Ele não esconde suas emoções e pede o auxílio de seus discípulos: “A minha alma está profundamente triste até a morte. Fiquem aqui e vigiem comigo” (Mt 26.38). Afasta-se um pouco, põe-se de joelhos na relva e ora uma vez, duas vezes, três vezes, as mesmas palavras: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice, contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres” (Mt 26.39). É aí que o Senhor mistura o suor com sangue (Lc 22.44). Os discípulos não entendem sua agonia nem conseguem vencer a soneira. Eles falham, mas Deus não falha: “Apareceu-lhe então um anjo do céu que o fortalecia” (Lc 22.43).
Se haviam participado do anúncio do nascimento a Maria, a José e aos pastores, se haviam orientado a José quanto às intenções de Herodes, o Grande, e se haviam servido Jesus logo após a tentação, por que não poderiam os anjos confortá-lo agora? Jesus diria, instantes depois, que poderia rogar ao Pai, em seu auxílio, a presença de mais de doze legi- ões de anjos, algo em torno de 72 mil anjos, caso quisesse (Mt 26.53). A cena no Jardim do Getsêmani termina com a abrupta chegada de uma multidão que carrega armas e tochas acesas, tendo o traidor à frente. Seguese o desconfortável beijo de Judas. Este o chama de Mestre e Jesus o chama de amigo (Mt 26.50). Pedro saca e usa a espada. Jesus realiza sua última cura: reimplanta a orelha de Malco (Lc 22.51).
Todos os discípulos fogem e Jesus é amarrado e levado à casa de Anás (Jo 18.12). A noite desta quinta-feira ainda não terminou. Jesus é interrogado por Anás, sogro de Caifás, o sumo sacerdote deste ano. Durante o interrogatório, recebe a primeira das muitas agressões físicas que receberá pela madrugada: um dos guardas lhe dá uma bofetada (Jo 18.22). Logo depois é levado ao palácio de Caifás e comparece perante o Sinédrio. Novo interrogatório. As testemunhas subornadas não se saem bem. Como Jesus se declara o Cristo, o Filho de Deus, Caifás dá por encerrada a sessão e Jesus é considerado réu de morte por blasfêmia. Então, alguns lhe cospem no rosto, outros lhe dão bofetadas e murros, e começam a zombar dele.
Nesse ínterim, Pedro nega o Senhor três vezes. Entre a segunda e a terceira negações há um intervalo de mais ou menos 1 hora (Lc 22.59), que o apóstolo bem poderia aproveitar para refletir melhor sobre sua conduta vergonhosa. Depois da terceira negação o galo canta. Jesus não está muito distante de Pedro e olha para ele sem dizer-lhe uma palavra sequer. Então Pedro se retira e busca um lugar para chorar amargamente. A essa altura, o dia começa a clarear, pondo fim à sofrida e interminável noite. É admirável que Jesus tenha se conduzido sem pressa e com toda tranquilidade durante a reunião do cenáculo, sabendo muito bem o que lhe estava reservado dali para frente. Foi nessa noite, nesse lugar e nessas circunstâncias que nasceu a mais solene cerimônia do Cristianismo católico-romano, ortodoxo e protestante: “O Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, tendo dado graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o meu corpo, que é dado em favor de vocês; façam isto em memória de mim’. Da mesma forma, depois da ceia Ele tomou o cálice e disse: ‘Este cálice é a nova aliança no meu sangue; façam isto, sempre que o beberem, em memória de mim’” (1Co 11.23-25, NVI).

Por Ricardo Barbosa de Sousa
Fonte: Lagoinha.com / Ultimato

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