Credibilidade

geração
De vez em quando faço uma liquidação de meus livros na Internet. Entretanto, meu processo de venda é bem artesanal (vamos chamar assim), pois não tenho uma infraestrutura para “mercado pago” e outras garantias.
O processo, então, envolve grande dose de confiança, da parte do comprador, pois ele precisará pagar primeiro e depois receber.
Peço ao interessado para escolher os livros e as quantidades, faço as contas, incluindo uma média de preços de correio, forneço o valor a ser depositado em minha conta corrente e aguardo o depósito. O comprador faz a transferência e me comunica, já informando o endereço postal. Pronto, envio os livros.

Outro dia, ao fazer uma dessas promoções, uma remessa de livros atrasou. Não sei que problema houve nos Correios, mas demorou mais que o normal. O comprador entrou em contato, dizendo que não a havia recebido. E eu fiquei preocupado. Pedi a ele para aguardar só mais alguns dias; se os livros não chegassem, eu lhe enviaria outra remessa, sem custo algum. E se, ao final, ele recebesse as duas, poderia dar alguns de presente etc., etc., etc. Você sabe, nessas vendas pela Internet a credibilidade é tudo. Se você for “mal qualificado” em alguma operação, e isso se divulga, o negócio fecha.
Mas qual não foi minha surpresa, quando recebi a resposta do meu comprador. Ele disse algo assim: “Não precisa ficar se explicando, justificando, prometendo nada; fique tranquilo, eu sei quem você é; conheci seu pai”.
Meu primeiro pensamento foi de susto, tipo: “Nossa, o nome do meu pai está em jogo!”. Depois, pensei: “Esse comprador deve ser ‘das antigas’, pois ainda acredita que filho de peixe, peixinho é”. Do tempo em que se selava um contrato com um fio do bigode. E, mesmo com dano próprio, não se retratava (Sl 15.4).
Bem, a encomenda chegou. E ele escreveu, me chamando pelo sobrenome, como das outras vezes: “Tudo em ordem, Amorese, vou começar pelo livro tal; vou dar o livro tal de presente ao meu neto, Deus o abençoe e tal e tal”. É interessante que os homens da família (meu pai, meu irmão e eu), no meio profissional, somos chamados de Amorese, embora nos apresentemos com o primeiro nome. Talvez tenha a ver com a sonoridade do sobrenome, tornando mais fácil guardar, ou pronunciar, não sei. Mas fico a pensar que seria mais fácil me responsabilizar pelo “Rubem” do que pelo “Amorese”. O primeiro, se eu, digamos, danificar, os danos ficam “em casa”. Já o segundo, prejudica uma história de família, no mínimo.
Aqui no meu íntimo torna-se inevitável a ligação com a admoestação do apóstolo Paulo, aos romanos, quando diz: “Pois, como está escrito, o nome de Deus é blasfemado entre os gentios por vossa causa” (Rm 2.24). Ele se referia àqueles que incluíam Deus em seus nomes, para marcar sua origem e filiação: “Povo de Deus”. E fico a pensar que um bom nome se constrói ao longo de muitos anos; em muitos casos, ao longo de gerações. E abre tantas portas! Que responsabilidade!
Um último pensamento: houve um tempo em que o sobrenome “protestante” abria portas (ou fechava, sim, mas trazia a marca da família: gente honesta). Com o desgaste da imagem (não vou entrar em detalhes), mudamos para “evangélicos”. Agora, queremos ser apenas “cristãos”. Talvez nem isso: apenas “seguidores de Cristo”. Mas temo que precisaremos de muitas gerações para restaurar a antiga credibilidade. Se é que isso ainda importa.

Fotos: Internet
Rubem Amorese – Ultimato
Fonte: Lagoinha.com

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