sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O ciúme que Ele sente de mim

Durante muito tempo perguntei-me que tipo de ciúmes teria o Espírito Santo ao nosso respeito, já que, enquanto as Escrituras declaram que "é com ciúmes que ele por nós anseia" (Tg 4.5), o apóstolo Paulo invariavelmente associe esse doloroso sentimento às obras da carne.
 Ora, o Espírito não tem corpo, como poderia, então, sentir ciúmes?
 Além do mais, se o amor não arde em ciúmes, e Deus é amor (e o Espírito Santo é Deus), como explicar a intrigante declaração bíblica acerca do assunto?
Um dia desses a curiosidade novamente aflorou, e voltei a essa passagem com a finalidade de compreender o porquê de Deus ter escolhido uma palavra tão humana para descrever um sentimento divino. 

Ciúme, no nosso dicionário quer dizer inveja, assim como a palavra grega usada no texto. O segundo sentido atribuído pelo dicionário, e mais adequado ao contexto bíblico, é "zelo de amor" ou "receio de certos afetos alheios não serem exclusivamente para nós".

O que é o ciúme senão medo de perder ou dividir o amor do(a) namorado(a), cônjuge, amigo(a)?  É um receio de que o outro se vá, deixando-nos em falta ou nos privando de algum senso de importância, e talvez a dificuldade que temos encontrado para compreender o ciúme divino se deva à aplicação desse conceito na nossa própria vida. A forma como nos ocorre esse sentimento, demonstrando nosso egoísmo e fragilidade, confunde-nos na interpretação do que Deus sentiria em relação a nós.

O ciúme do Espírito, todavia, não é um tipo de medo, pois o verdadeiro amor lança fora todo o medo. No amor, não há medo, não há tormento, não há imperfeição. O amor não busca seus próprios interesses, ele é altruísta, logo, o ciúme divino não pode ser por algo que ele mesmo possa perder, mas sim por algo que nós podemos perder dele e de nós mesmos.

Sim, porque a amizade com o mundo rouba-nos a essência. Ela nos embota os sentidos e prejudica a saúde da nossa consciência.

Ao andar lado a lado com o mundo, perdemos aos poucos a nossa identidade e negociamos nossos valores, porque essa é a sua moeda. "Dê-me um pouco dos seus valores, que eu lhe dou um pouco de prazer". Ficamos viciados nessa troca, e nos custa muito caro. Muitos vão à falência assim. Não é de admirar que haja tantos mendigos espirituais perambulado por todos os lados, com seus chapéus estendidos em busca de alguma migalha de graça que lhes caia ao chão.

O Espírito, portanto, sente ciúmes não exatamente de nós, como alguém que não quer que o outro se enamore, mas por nós. Por nos perdermos nessa aventura dos sentidos, que nos defrauda. É um tipo de tristeza por aquilo que poderíamos ser se cortássemos o vínculo com esse amigo ingrato que arranjamos numa "bocada" qualquer, e que nos suga as forças, a inteligência, o bom senso, a dignidade. Esse amigo que nos dá maus conselhos e nos conta mentiras para nos convencer a ir a lugares inapropriados e fazer coisas reprováveis. Esse cara que só quer curtir e não se importa com o que vai ser do nosso futuro, das nossas finanças, da nossa saúde. O irresponsável e insaciável,  Sr. Mundo.

O Espírito, enciumado, meneia a cabeça, estala a língua em desaprovação, derrama algumas lágrimas de lamento por tudo que estamos perdendo, e fica cabisbaixo por ver tanto potencial sendo desperdiçado.

Não é que ele queira nos privar dos prazeres, entenda. Ele não sente ciúmes da nossa alegria, das nossas festas, do vinho que bebemos ou do trio elétrico que seguimos. Nem é das roupas que usamos, das músicas que ouvimos, nem das bocas que beijamos. Mas sempre do modo como fazemos ou dos princípios que ignoramos quando praticamos tais coisas. Por nos ver perdendo tempo e energia. Por saber que há algo muito melhor e mais vantajoso em vista.

Não é ciúme de nada em si mesmo, senão por escolhermos fazer quaisquer dessas coisas fora dele. Por tudo que fazemos sem envolvê-lo, ferindo nossa consciência e negando a vida latente dentro de nós. Por aquilo que fazemos em desacordo com sua natureza, que vai deformar a nossa imagem e nos afastar do caminho da perfeição. Pelas nódoas nas nossas vestes alvas de santidade.

O amigo Espírito Santo, que mora dentro de nós, sente ciúmes por nossa amizade com esse cara perverso. Por desejarmos sua companhia destrutiva. Por cultivarmos essa relação triste e doentia com o amigo da onça.

Porque ser amigo é diferente de ser colega, você sabe. Ser amigo é diferente até de conviver. Conheço irmãos que moram juntos desde a infância, e passam longe de serem amigos. Também conheço colegas de trabalho que se veem todos os dias, sem, no entanto, estabelecerem qualquer vínculo de cumplicidade e companheirismo.

Ser amigo é muito mais. É compartilhar e curtir as ideias mutuamente. Dar e receber. Fazer "companhia presente" (porque há muita "companhia ausente", em muitos relacionamentos, vale dizer). É aconselhar e andar junto. É associar-se. É parecer-se com. É concordar. É conhecer. É preferir. É se envolver. É abraçar por dentro. É estimular.

E tal qual no jardim de infância, onde a briga de dois amigos era sinônimo de racha ("ou você anda com ele, ou comigo, decida-se!"),  assim é no mundo espiritual - eu e você devemos decidir em qual turma vamos andar, já que Deus e o mundo não são se bicam.

E antes que você pense que estou condenando o mundo lá fora, aquele no qual as pessoas transitam e vivem, trago-lhe as palavras do apóstolo Tiago, que precedem sua tão polêmica declaração, as quais desmistificam o pensamento de que ele está em algum lugar alheio a nós, que podemos pisar com nossos pés e tocar com as nossas mãos.

1 De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne?

2 Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis;

3 pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres.

4 Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. 

5 Ou supondes que em vão afirma a Escritura: É com ciúme que por nós anseia o Espírito, que ele fez habitar em nós?

6 Antes, ele dá maior graça; pelo que diz: Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes. Tiago 4.1-6

Na verdade, essa inimizade é épica, e está acontecendo bem aí, debaixo do seu nariz.

A boa notícia, é que para aqueles que decidem andar com o Maior, existe GRAÇA disponível, basta apenas que sejamos humildes para nos sujeitarmos a ele. Em contraste com isso, apenas a DESGRAÇA espera aqueles que decidem se associar com o mundo.

Quer saber? Acho melhor você decidir logo com quem vai andar...

Por Luciana Honorata.
Fonte: www.guiame.com.br

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