Um Deus, Três pessoas

A doutrina da trindade é bíblica ou uma fantasia teológica?
Muitos cristãos estão acostumados com diversos conceitos teológicos, mas se alguém perguntar sobre o fundamento bíblico, pode não ser tão fácil demonstrar.
A palavra “trindade” não se encontra na bíblia. O termo foi criado por Tertuliano, por volta do ano 200 d.C.. Este tem sido o argumento daqueles que desejam negar a doutrina trinitariana, mas o fato de não existir a palavra não garante a inexistência do conceito. Também não estão na bíblia as expressões: arrebatamento, missionário, evangélico, milênio, espiritismo, José do Egito, Santa Ceia e Filho pródigo, tão utilizados pelos cristãos (lembrando que os títulos não fazem parte do texto bíblico).

 A EXISTÊNCIA DAS TRÊS PESSOAS
Em Gênesis 1.26, Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”. Verbo e pronome no plural indicam a presença de mais de uma pessoa.  Há quem diga que Deus falava com os anjos naquele momento. Entretanto, o verso seguinte une as pessoas envolvidas ao dizer: “Criou Deus o homem, à imagem de Deus o criou” (Gn.1.27). Agora, o verbo criar está no singular, indicando um só criador. Aquela imagem que era “nossa” é de um só. Além disso, o homem não foi criado à imagem dos anjos, mas de Deus. Então, os anjos não estão naquele plural do verso anterior.
Chegando ao Novo Testamento, as evidências neste sentido tornam-se abundantes. Mateus nos informa que, após o batismo, Jesus saiu das águas do Jordão, o Espírito Santo veio sobre ele em forma de pomba, enquanto o Pai bradava do céu: “Este é o meu filho amado em quem me comprazo” (Mt.3.16-17). A existência das três pessoas fica demonstrada inequivocamente.
Podemos mencionar ainda outras passagens que mostram a trindade:
“Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt.28.19).
“A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós” (2Co.13.13). Neste e em muitos outros textos, a palavra “Deus” refere-se ao Pai.
“E eu (o Filho) rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre, a saber, o Espírito da verdade…” (João 14.16-17).
As três pessoas são mencionadas também João 14.26; IPd.1.2; IJo.5.7; At.7.55; Rom.15.16; At.10.38; At.11.16-17; Rm.14.17-18; Rm.1.4; ITss.1.3-5; ITss.5.18-19
trindade
 O ESPÍRITO SANTO É UMA PESSOA
Como teríamos três pessoas em Deus, se o Espírito Santo não fosse uma pessoa? Uma pessoa tem sentimento, inteligência e vontade própria, elementos que não se encontram numa força ou energia.  A bíblia nos mostra que o Espírito Santo tem todas estas características.
Ele tem sentimentos: “Não entristeçais o Espírito Santo” (Ef.4.30). Ele tem vontade própria: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, distribuindo particularmente a cada um como quer” (ICo.12.11). Veja também At.15.28.
Ele fala e dirige a igreja: “Enquanto eles ministravam perante o Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo: Separai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado” (At.13.2). Parece que os apóstolos estavam lidando com uma força ou com uma pessoa? Veja também Rm.8.26; At.28.25-26; At.8.29.
A INDIVIDUALIDADE DAS TRÊS PESSOAS
Existem nuances no texto que precisam ser observadas para não cairmos no engano. Os unicistas admitem a existência do Pai, do Filho e do Espírito Santo, mas dizem que os três são, na verdade, uma só pessoa, ou seja, três manifestações da mesma pessoa. Então, Jesus seria o próprio Pai encarnado.  O Espírito Santo seria o próprio Pai e também o Filho.
Se Jesus é o próprio Pai, por quê ele precisaria orar? Seria um teatro para impressionar e ensinar os discípulos? De modo nenhum.  Por quê ele diria “Deus meu, Deus meu, por quê me desamparaste”? (Mt.27.46).
Por quê teria dito que “o Pai me enviou” (João 20.21) ou “eu rogarei ao Pai para que lhes envie outro Consolador”? (João 14.16). Se os três fossem uma só pessoa, não haveria diálogo entre eles e um não enviaria o outro. A palavra “outro”, lida no texto de João 14.26, mostra que não é o “mesmo”. Então, são pessoas distintas.
Veja também Rm.8.3; I Jo.4.4; João 14.23; João 16.13; Mt.3.16-17; João 8.38; João 8.29; At.7.55; At.10.40; Mt.12.32; Mt.4.1; Lc.4.1,18.

A DIVINDADE DAS TRÊS PESSOAS
A divindade do Pai é ponto pacífico. Nenhum crente discute isso. Geralmente, quando o texto bíblico fala de Deus, está falando do Pai. Isso parece favorecer a doutrina unitarista. Entretanto, devemos verificar se temos argumentos para demonstrar biblicamente a divindade de Jesus e do Espírito Santo.
A  DIVINDADE DO FILHO
Isaías profetizou que um menino seria chamado “Deus forte” (Is.9.6). Esta afirmação maravilhosa e surpreendente aponta para a humanidade e divindade de Cristo.  O mesmo profeta disse que o Messias seria chamado Emanuel, que quer dizer “Deus conosco” (Is.7.14; Mt.1.23).
Temos ainda a abertura contundente do evangelho de João: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (João 1.1). “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (João 1.14).
Tomé declara que Jesus é “Senhor meu e Deus meu” (João 20.28). Inúmeras vezes, Jesus é chamado de Senhor pelos diversos autores do Novo Testamento. Alguém pode dizer que o referido substantivo é apenas um tratamento respeitoso como o que usamos hoje com qualquer homem adulto. Se fosse assim, não faria sentido o que Paulo escreveu aos coríntios:
“Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão pelo Espírito Santo” (ICo.12.3). E aos Filipenses: “Todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor” (Fp.2.10-11).
Portanto, este “Senhor” precisa ser algo muito acima do sentido comum, uma referência à divindade de Cristo.
A respeito do Filho, João escreveu: “Este é o verdadeiro Deus” (IJoão 5.20).
Paulo se referiu a ele como “Nosso Deus e Senhor Jesus Cristo” (Tito 2.13).
No salmo 110.1, Davi escreveu: “Disse o Senhor ao meu Senhor: assenta-te à minha direita”. Se Deus é o Senhor, como poderia haver dois na mesma frase? Jesus citou esse texto em referência a si mesmo (Mt.22.41-46). O autor da carta aos Hebreus também viu nesse salmo uma alusão a Cristo (Hebreus 1.13). A “amarração” verificada entre Mateus, Hebreus e Salmos é muito importante na demonstração da trindade na bíblia e, especialmente, da divindade de Jesus Cristo.
“Olhai, pois, por vós, e por todo o rebanho sobre que o Espírito Santo vos constituiu bispos, para apascentardes a igreja de Deus, que ele resgatou com seu próprio sangue” (At.20.28).  Como Deus pode ter sangue? Trata-se do sangue de Jesus. Portanto, Jesus é Deus. A este respeito, leia também 2Pd.1.1.
A DIVINDADE DO ESPÍRITO SANTO
Já demonstramos que o Espírito Santo não pode ser uma força pois ele tem características pessoais. Além disso, o tratamento que lhe é dado pelos escritores do Novo Testamento nos fazem concluir que o Espírito Santo é Deus.
Os unitaristas aceitam esta afirmação, mas sob outra ótica. Eles dizem que o Espírito Santo é o próprio Deus e não outra pessoa. Então, o Espírito Santo seria o próprio Pai. Isso não combina com os textos já apresentados que demonstram a individualidade das três pessoas. Já vimos que o Espírito Santo foi enviado pelo Pai. Logo, são pessoas distintas. O Espírito Santo, embora não seja o próprio Pai, é tratado como Deus nas Escrituras, conforme as seguintes passagens:
Quando Ananias e Safira mentiram a Pedro, este afirmou que, de fato, a mentira era direcionada a Deus e não aos homens. Depois, disse que eles mentiram ao Espírito Santo. Então, para Pedro, o Espírito Santo era Deus (At.5.1-5).
Em Atos 28.25-26, o apóstolo Paulo citou a profecia de Isaías 6.9-10.  Se consideramos que Isaías era um profeta de Deus, entendemos que era Deus quem falava por intermédio dele. Em Atos, Paulo disse que o Espírito Santo falou através do profeta. Portanto, o Espírito Santo é Deus. O mesmo entendimento se obtém da comparação entre Hebreus10.15-16 e Jeremias 31.31-34.
A UNIDADE DAS TRÊS PESSOAS
Depois de termos demonstrado a existência das três pessoas e que elas não são a mesma, precisamos demonstrar que elas se reúnem em um só Deus.
Jesus disse: “Eu e o pai somos um” (João 10.30). Como podemos conciliar tal afirmação com aquela, quando ele mesmo disse: “O Pai me enviou” (João 8.16).  Se não existe trindade, Jesus teria mentido em uma dessas passagens. Sabemos que ele não mente. O Pai, o Filho e o Espírito Santo são três e, ao mesmo tempo, são um. Se assim não fosse, teríamos três Deuses no Novo Testamento e o cristianismo seria politeísta.
Chegamos ao cerne do mistério da trindade, mas a dificuldade de compreendê-la não serve como permissão para negá-la, pois estaríamos contra as Escrituras. A mesma dificuldade tem levado muitos a negarem a criação, o nascimento virginal, a ressurreição, a ascensão etc..
“Pois há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra (o Verbo) e o Espírito Santo e estes três são um” (I João 5.7).
Dizer que o fato dos três serem um seja evidência de que não são três pessoas mas uma só é ir contra todas os textos bíblicos que mostram os três separados e individualizados.
IMPLICAÇÕES DE UMA VISÃO UNITARISTA

DO NOVO TESTAMENTO
Se não houver trindade, alguns textos bíblicos que citam o Pai, o Filho e o Espírito Santo, tornam-se desnecessariamente redundantes, além de estranhos: Mt.3.16-17;  Mt.28.19;  2Co.13.13; At.11.15-17; Rm.8.9; Rm.14.17-18; Rm.15.16;  Rm.1.1-4;  ITss.1.3-5;  ITss.5.18-19; Rm.8.8-11.
A doutrina da trindade concilia versículos que apontam para um só Deus com outros que reconhecem a divindade dos três separadamente. Se cremos na divina inspiração das Escrituras, creremos na coexistência e coerência desses textos.
Render-se a qualquer dificuldade em torno do assunto, rejeitando a doutrina da trindade, leva o indivíduo a ver politeísmo no Novo Testamento.  Assim, o cristianismo perderia o sentido.
A bíblia apresenta a revelação progressiva dada por Deus ao homem no decorrer da história. Vamos comparar esta revelação a uma árvore. Unitarismo e unicismo lhe arrancam os frutos, folhas e galhos. O liberalismo teológico arranca o tronco. O ateísmo arranca as raízes. É o que acontece no coração daqueles que aceitam tais doutrinas.
Esses tipos de fé (ou incredulidade) inutilizam pouco a pouco as Sagradas Escrituras e produzem uma “vida espiritual” cada vez mais vazia e sem sentido (ou melhor, morte espiritual).
Eliminando a essência da cristologia e da pneumatologia, inutiliza-se o Novo Testamento. Seria um modo de “cair da graça de Deus” (Gal.5.4). O unitarismo é um retrocesso ao nível de revelação do Antigo Testamento sem, contudo, produzir os efeitos práticos daquela época.
Se a trindade não existe, Jesus não é Deus. Se Jesus não é Deus, ele é apenas um homem comum. Seria razoável admitir que, ainda assim, ele tenha nascido sem uma relação sexual? Jesus seria ainda o salvador da humanidade? Sua morte na cruz teria valor diante de Deus? Ele teria ressuscitado dentre os mortos e subido ao céu? Estaria assentado à direita do Pai? Teria aparecido a Saulo no caminho de Damasco?  Então nossa doutrina seria espírita ou Saulo teria visto um fantasma? Mesmo sendo um homem comum, Jesus voltará nas nuvens para buscar os salvos e julgar o mundo?
Se tudo isso perde o valor, o cristianismo se destrói. Se Jesus não é Deus, inúmeros textos bíblicos perdem o sentido. O Novo Testamento estaria então aprovando a antropolatria (adoração a um homem), dizendo, inclusive, que os anjos devem adorar a esse homem chamado Jesus (Heb.1.6).
Se o unicismo ou unitarismo estivessem certos, Deus não precisaria ter enviado Jesus nem o Espírito Santo. Se o Espírito Santo não é Deus, os dons espirituais são automaticamente descartados e o cristianismo torna-se apenas uma religião teórica e sem poder. Tais heresias trazem graves implicações pessoais, pois está escrito: “Aquele que nega o Filho, também não tem o Pai” (IJo.2.23).  Esta afirmação encontra-se no contexto de combate aos anticristos do primeiro século.

Pr.Anísio Renato de Andrade
www.anisiorenato.com

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